Caminhar com Lívia: um percurso de escuta interessada

Atualizado: 29 de ago. de 2021
Faz um tempinho que Lívia e eu voltamos a pé da escola que ela frequenta. Foi um pedido dela voltar pra casa caminhando. Vontade nascida da curiosidade pelas ruas, pessoas, prédios, placas, bichos, plantas. Desejo de aproximação dos seres e das coisas presentes – vislumbradas, intuídas, mal olhadas; e desconhecidas, impensadas, estranhas – nos caminhos experimentados, até então, somente pela janela do carro.
Embora eu goste muito de caminhar, no início, relutei. Afinal são mais de 2 quilômetros da escola até a nossa casa que seriam feitos com uma criança.
Mãe, eu tenho cinco anos!
Ela, do alto dos seus cinco anos, tinha pra si que estava apta a percorrer o trajeto. Mais do que isso: queria essa aventura da caminhada que permite parar e, quem sabe, até demorar e espiar pelos muros, conversar com os cachorros, equilibrar-se no fio da calçada, subir em árvores, catar as pedras, sempre muito preciosas, do caminho.
E eu? Estaria também apta para esse percurso? Com tempo, disposição e disponibilidade para viver com ela essa aventura?
Gosto da palavra aventura. Sempre que posso, uso. Aventura, do latim "ad venture": o que vem pela frente. No nosso caso, aventurar-nos pelo caminho, encarar o que viria pela frente, pela abertura e acolhimento para acompanhar o ritmo marcado pelos passos de Lívia.
Nesse lugar de companhia, daquela que por vezes apresenta o caminho e noutras é apresentado a ele, começamos a voltar a pé. Quase uma hora, na perspectiva cronológica adulta, de um trajeto vivido nos tempos de aión e kairós das crianças:
Aión, o tempo infantil, é o tempo circular, do eterno retorno, sem a sucessão consecutiva do passado, presente e futuro, mas com a afirmação intensiva de outro tipo de existência. (KOHAN, 2007, p.114) (...) um aqui e agora concreto, ao que os gregos chamavam de kairós, a oportunidade. (LARROSA, 2018, p. 78)
Um tempo favorável para a escuta de si e do outro. Não há pressa – ainda que não tenhamos todo o tempo do mundo, pela vida que continua na tal dinâmica cronológica assim que chegarmos em casa e os afazeres domésticos se apresentarem com força em suas materialidades: roupas por recolher, comida por fazer, louças sujas que nunca, nunca terminam.
Mas nesse percurso – da escola até a casa – em que o tempo se abre em outra dimensão de existência, me entrego à oportunidade gerada pelo pedido-convite de Lívia, e a intensidade do momento não cabe no próprio tempo.
Aparece aí, no percurso compartilhado da caminhada lado a lado com a menina incrível de cinco anos (agora seis), uma percepção muito maior de um tipo de escuta favorecida pelas circunstâncias de ter tempo, estar presente e com energia (Kliass, 2021). Em estado de presença, estou imersa. Não há aceleração. Han (2021) escreve que a produção de sentidos se dá pela conclusão e onde há aceleração sem fim não é possível concluir. Para esse filósofo as narrativas, os rituais, as cerimônias, o sono, o abraço amoroso, o diálogo são formas de conclusão. E, também, o instante. No percurso da caminhada, estou inteira e, genuinamente, escuto, dialogo, produzo sentidos. Vou nomear essa escuta de escuta interessada.
Da minha parte, uma escuta interessada pelos modos de a Lívia interagir com o caminho e comigo, e de como eu interajo com ela e com o que se passa no caminho, de um jeito muito diferente do que nos retornos da escola feitos de carro.
Da parte dela, coleto indícios de uma escuta interessada no que habita e cruza o caminho, no que o caminho revela sobre ela, sobre mim, sobre ser mãe e filha, sobre ser mulher e menina, possibilitada por um tempo compassado por ela, em que é possível parar, questionar, imaginar.

Que música o passarinho não tá gostando? Vou lá encostar, tá, mãe? Por que quando a gente encosta sente melhor o som, né?

Tô escutando a conversa de Deus.
Enquanto caminhamos, lado a lado, cada uma de nós produz memória de um caminho, mas quando conversamos, trocamos impressões, apontamos coisas uma pra outra, os caminhos singulares de cada uma se encontram, cruzam um com o outro, se revelam em seus recortes e modos de ver. Tenho, nesses momentos, acesso privilegiado às formas de Lívia ver o mundo, às suas hipóteses e interrogações. Ela me dá senhas para adentrar seu portal de imaginação criadora de sentidos e significados sobre o mundo e, também, oportunidade para revisitar minha imaginação, meus sentidos - como significo a mim mesma e as coisas do mundo, meus saberes e conhecimentos. Minha escuta interessada me permite tudo isso. Esta é a minha senha e por ela Lívia revela as suas para mim.
Escuta interessada implica um estado de presença que não é possível o tempo todo, justamente porque necessita de um tempo alargado de atenção, de conexão e, também, a vontade, o desejo de estar atento ao outro. E, claro, por isso mesmo, cansa. O estado de maravilhamento também cansa. Querer saber, conhecer, estar com, também pede afastamento, relaxamento, descanso. É preciso outro tempo para elaborar o vivido. Silêncio. Favor fechar os olhos, escreve Han citando Barthes: fechar os olhos significa trazer a imagem à fala no silêncio (2021, p. 14-15). Mas, enquanto caminhamos em cirandas que nos levam pra casa, vamos juntas, soltas, falantes, meditativas, leves – com alguns momentos tensos, é bem verdade -, investigando possibilidades de aproximação. Escutar os passos que pausam, o suor que brota, os olhos que brilham, a pergunta que insiste, a euforia que descompassa. De si e do outro. Um corpo todo que escuta interessadamente o outro, o que se passa no caminho.
Fico pensando que ao retornar de carro da escola, Lívia também vai me anunciando o que vê no caminho, me convidando a dialogar. Acontece que quando dirigimos, a atenção e a conexão com o outro passa a ser compartilhada com os cuidados que precisamos ter com o trânsito e não há como olhar a árvore de tronco vermelho e a nuvem que parece um dragão. Não há como escutar a cor dos passarinhos, né Manoel?[1]
Na direção do carro, eu respondo “Agora não posso olhar”, “Na volta, você me mostra” ou ainda “Sim, filha, a mãe tá vendo”. Mas, o fato é que não estou vendo e não estou escutando de verdade, interessadamente. É claro que estou ouvindo, porque o som é imersão, ele irradia no ambiente, penetra. No entanto, ouvir não é a mesma coisa que escutar.
Comparar nossos retornos da escola, a pé e de carro, me dá a dimensão do quanto a escuta interessada está vinculada a certas condições e contextos. Escutar interessadamente não é fácil. Ouso dizer que talvez seja uma das atitudes mais difíceis do encontro com o outro.
Chego mesmo a pensar, entre tantas coisas que vão se apresentando sobre esse tema, se existe encontro sem escuta, sem escuta interessada.
O ouvido é o unificador do vínculo social enquanto ouve a voz humana e recolhe a palavra do outro. O ouvido é depositário da linguagem. O entendimento é outro nome para o pensamento. Ser ouvido significa ser compreendido. (...) É a escuta que ordena o mundo (...) (BRETTON, 2018, p. 130-131, grifos meus)
Se é a escuta que ordena o mundo, que dádiva esse caminho de volta da escola pra casa com a Lívia, pois somos uma da outra e pra outra, somos do caminho e por ele; chegando em casa, a escuta continua interessada, ou tentando ser, mas se dissipa, é atravessada por todos os ruídos que competem por presença e atenção – minha e dela. Próximo ao horário de dormir, recuperamos o encontro por uma escuta interessada que se estabelece nos momentos anteriores ao sono, pelas histórias que contamos uma pra outra, pelas conversas curiosas, pelas perguntas de uma criança que tem desejo de entender esse mundo – Os alienígenas da época dos dinossauros eram diferentes dos de hoje em dia?
E eu torço para não esquecer dessas perguntas, desses instantes, dessas imagens. Depois de ela dormir corro a anotar esses tesouros. Nas caminhadas da escola pra casa, quando possível faço fotos, gravo áudios, filmo. Quero guardar esses encontros, ir me constituindo também por essa coleção de perspectivas que são colhidas numa escuta interessada com uma criança pequena. E depois dar a ela, aos amigos, a quem mais fizer sentido esse inventário. Guardar para olhar, para admirar, para ser acordada, como bem diz Antônio Cícero:
Guardar Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que pássaros sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.
Esse texto é nascido de conversas com o querido amigo Gabriel de Andrade Junqueira Filho. Um diálogo amoroso, curioso, vivaz.
As caminhadas com Lívia iniciaram em abril de 2021 e continuam me ensinando sobre a escuta interessada.
Por Larissa Kovalski Kautzmann, mãe de Carolina (26 anos) e Lívia (6a 1m), pedagoga e mestra em educação. (larissakautzmann@gmail.com)
REFERÊNCIAS
BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Alfaguara. Edição do Kindle.
CÍCERO, Antônio.
HAN, Byung-Chul. Favor fechar os olhos. Petrópolis: Vozes, 2021.
KLIASS, Sonia. El arte de poner límites (Colección Vivir con niños) (Spanish Edition). ING Edicions. Edição do Kindle, 2021.
KOHAN, Walter Omar. Infância, estrangeiridade e ignorância: ensaios de filosofia e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
LARROSA, Jorge. Esperando não se sabe o quê: sobre o ofício de professor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.
BRETTON, David Le. Antropologia dos sentidos. Petrópolis: Vozes, 2018.
[1] Em homenagem ao poema de Manoel de Barros, poeta que me inspira a escutar com interesse os seres e as coisas do mundo.
Larissa querida, nesta narrativa de um cotidiano vivo e encantador, vejo além de outras coisas, a preciosidade de estarmos com e para as crianças. São elas, com suas observações generosas, encantas e com seus questionamentos intrigantes que nos farão continuar acordando para dentro como dizia Quintana.
Continue a fazer vigília.
Receba meu abraço afetuoso.
Paloma.💓